Como vencer o “bicho” da procrastinação em 5 passos

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Hoje, para te falar sobre procrastinação, vou contar-te uma história sobre uma rapariga e uma pilha de papéis.

Era uma vez uma rapariga, na casa dos trinta, que tinha uma grande pilha de papéis por arquivar na sua secretária. A pilha tinha começado inocentemente a formar-se num dia em que a rapariga decidiu que não era oportuno arquivar aquele papel de que já não precisava: havia emails para responder, janelas de chat a piscar e uma lista de pendências de dimensões astronómicas. Aquele singelo papel podia esperar, certo?

Bom, e se havia um papel, que até já tinha um lugar para estar e tudo, poderiam haver outros. Um dia, ela haveria de pegar naqueles papelitos e arquivá-los de uma vez por todas. Errado!

Quando a rapariga deu por si, a pilha teria mais de 10 centímetros de altura e isso fê-la levar as mãos à cabeça: isto tem de parar, decidiu.

Como já adivinhaste, a rapariga na casa dos trinta sou eu.

A palavra “procrastinação” não era desconhecida. Só que, durante muito tempo, não passava de um “palavrão”, de uma palavra com muitas letras, difícil de dizer, de escrever e de entender.

Cresci a procrastinar: teria 8 ou 9 anos, andava na escola primária e tinha aulas só da parte da manhã. Ah, toda a tarde para fazer os trabalhos de casa (havia-os sempre) e para brincar! E o que é que eu decidia fazer primeiro? Ver televisão. Até à exaustão! E, só quando sabia que a minha mãe estava para chegar é que me agarrava aos cadernos e fazia as contas e as cópias às pressas.

Era já uma procrastinadora, sem a mínima noção de que havia uma palavra para descrever o meu comportamento.

É certo que eu era apenas uma criança e que, como todas as crianças, queria entreter-me e não fazer TPC’s. Também é certo que não ter um adulto por perto parte do tempo me ajudava a ser mais irresponsável.

Só que a verdade é que se estava a formar um padrão e um hábito: primeiro a devoção e depois a obrigação. Eu cresci a ouvir o contrário, por isso deveria saber fazer as coisas da forma certa…

Com o passar dos anos, algumas arestas foram limadas e alguns procedimentos modificados. Consegui, com esforço, deixar de adiar tanto os meus afazeres. Entre o ciclo preparatório e o primeiro emprego, o comportamento só se verificava em alguns aspetos, mais do foro pessoal, mas sem consequências de maior. Quando ouvia, por acaso, a palavra “procrastinação”, achava que isso era algo que só os outros faziam, nunca eu.

Contudo, já nos trinta, o comportamento recomeça a manifestar-se: adio a ida ao dentista (eu sei, esta é fácil), uma lâmpada funde-se, mas deixo a compra e a troca para depois (se tiver de estar às escuras durante uns dias, que mal faz?), entrego o IRS só à última da hora (quem é que não gosta de um desafio ao estilo “Missão Impossível”?)…

E, claro está, formam-se pilhas: papéis por arquivar, emails por responder, pastas de assuntos para tratar, tarefas por concluir, etc., etc.. O tampo da minha secretária deixa de se ver, tal a quantidade de pastas com assuntos pendentes. Quando era necessário recuperar algum tema, demorava vários minutos para encontrar o ficheiro em causa.

Acumulo responsabilidades, os emails enchem a minha caixa de correio a um ritmo veloz, o MSN pisca a toda a hora, o telefone toca, entregam-me todo o tipo de papeis… E eu, sentindo-me assoberbada, e, por vezes, sem a mínima vontade de fazer muitas das coisas que me competem, vou deixando tarefas para trás. E vou-me desculpando com o “tanto-que-tenho-para-fazer”, com as solicitações que não têm fim. Há mais do que isso lá no fundo, eu é que não consigo perceber!

A determinada altura, e um pouco por acaso, leio um artigo sobre produtividade e gestão de tarefas e alguém fala sobre Leo Babauta (falarei em maior profundidade sobre o seu trabalho num outro post). Procuro o autor, descubro o seu blogue, e os seus livros, e caio em mim: sou uma procrastinadora descarada. Adio sem contemplação. Não faço as coisas porque simplesmente não me apetece.

É doloroso constatar e encarar algo desta dimensão. Apercebo-me de que andei a viver no meio de uma mentira criada por mim, pela minha preguiça, pela minha incapacidade de ultrapassar a inércia que se tinha apoderado do meu ser, impossibilitando que eu fosse para além do que me era devido.

Tinha tentado, das formas mais diversas, tornar-me mais produtiva, estabelecendo datas para terminar cada tarefa, para cumprir prazos, sem que nada parecesse, no entanto, funcionar. Eu culpava a falta de tempo e as tarefas que não paravam de chegar.

Para mim, foi uma grande tristeza perceber e enfrentar esta minha fraqueza. E foi duro engolir o tempo que tinha desperdiçado.

Porém, nada havia a fazer naquele momento a não ser “apanhar os cacos” e seguir em frente.

Essa é a única atitude a tomar perante uma constatação como esta: errei, não quero continuar a agir desta maneira, por isso vamos lá fazer diferente e tentar melhorar.

A secretária foi destralhada, as tarefas foram revistas, as pendências resolveram-se e entrei num novo ciclo: um ciclo com uma promessa: “vou procrastinar o menos possível”.

Chamo-lhe o estado de espírito “se já não é preciso, vai para o arquivo!”

Não vou mentir, o chamado da procrastinação é forte e ignorar o seu apelo é difícil. António Variações sabia do que falava na sua famosa canção É p’ra amanhã (esta é uma das que encontras na lista oficial do It’s (not) so simple no Spotify).

Por saber o quão difícil é combater este “bicho” chamado Procrastinação, deixo-te os cinco passos que uso para contrariar a “dita cuja”:

  1. Determinar o que há para fazer em cada dia: uma lista fazível e não um rol interminável de tarefas que nem um super-herói conseguiria levar a cabo!
  2. Fazer essas tarefas logo no início do dia, ou o mais cedo possível: se aquela pessoa com quem é preciso falar só está disponível da parte da tarde, fazer outras tarefas primeiro, ou optar por enviar-lhe um email, para adiantar o tema.
  3. Se chegar, entretanto, uma tarefa não planeada, juntá-la à lista e, quando possível, definir quando será levada a cabo. Caso essa tarefa não planeada não demore mais do que 2 minutos a concluir, concluí-la e pronto. Esta dica do Leo Babauta para mim é preciosa!
  4. Se a vontade de fazer determinada coisa se escapar, respirar fundo, observar de perto os sentimentos e os pensamentos que assomam nesse momento, aprender com isso e retomar a tarefa.
  5. Repetir os passos anteriores as vezes forem necessárias.

E é isto!

Depois de muito analisar a minha relação com a procrastinação, cheguei à conclusão que tudo se resume a medo: receio não ser bem sucedida, temo que a tarefa seja difícil, entediante, inútil… Porém, tive de me render às evidências: se tem mesmo de ser feito, porquê adiar? Na esperança de que a tarefa desapareça por si só? Não vai acontecer!

Fazer agora é sempre a melhor solução e a decisão mais sensata.

Boa “desprocrastinação”!

E tu, como lidas com a procrastinação? O que costumas procrastinar? Ou o que é que nunca procrastinas? Conta-me tudo!

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6 thoughts on “Como vencer o “bicho” da procrastinação em 5 passos

  1. Mafalda, identifico-me com o que escreves. Infelizmente é algo com que lido diariamente, e ao final do dia perceber que adiei (procrastinei furiosamente) o que temia, com o receio de falhar. O medo é o principal motor da procrastinação, e levei muito tempo para perceber isso em mim, e nos outros.
    É um gerir todos os dias e tentar fazer melhor do que o dia anterior. E respirar fundo, aceitar as falhas e fazer melhor, sem o peso que se carrega cá dentro. Até virar um hábito como tantos que adquirimos…ainda em processo 🙂 confesso.
    Para mim, arrumar papelada, fazer aquele telefonema mais difícil, é das piores coisas. Até que chega aquela altura em que sabes que não adianta mais adiar, tem de ser feito. E o pior, fazes em pouco tempo, e percebes que perdeste imenso tempo a adiar, a procrastinar…

    Grata pelas dicas e pela partilha…e pelo tempo que dedicaste a este post 🙂

    Um grande beijinho.

    1. Querida Sandra,
      Admitir uma falha é, realmente, meio caminho para começar a mudar um comportamento. Escrever este artigo teve, para mim, um efeito catártico: assumir algo desta dimensão fere o ego, pelo menos, é o que eu sinto.
      Mas sim, procrastinar pode parecer mais fácil, só que, no final, tem custos muito elevados. Vamos tentando fazer o melhor que podemos, não é?
      Obrigada pela tua partilha e também pelo teu carinho.
      Beijinhos grandes.

  2. Bom, eu acho que isto não se aplica a mim! Só não sei porque o meu chefe me encaminhou para aqui! =/

    Agora a sério, concordo totalmente com o que escreveste e revejo-me no que aqui está, mas às vezes é difícil quando as tarefas começam a entrar a um ritmo acelerado e temos de alterar as prioridades e aquelas tarefas que queríamos despachar vão ficando para depois, e são adiadas tanta vez (por vezes porque há mais vontade de olhar para umas tarefas do que outras sem dúvida) que quando vou a ver tenho coisas por fazer de há uns 4 anos atrás…

    Por isso obrigado, vou colocar na minha “todo list” aplicar os teus passos e assim que tenha tempo chego lá! =P

    Gostei do artigo, parabéns pela iniciativa e boa sorte com a desprocrastinação! 😉

    1. Obrigada pelo teu comentário, Filipe. Vamos fazendo o que é possível, não é?
      Boa desprocrastinação também para ti 🙂

  3. Adorei! Muito útil.
    Mafalda, só hoje conheci o seu blogue e estou a gostar muito.
    Porém não consigo subscrever a newsletter, dá sempre a indicação de e-mail inválido.
    Oque devo fazer?
    Obrigada
    Ana

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