Devagar, que eu tenho pressa!

Hoje partilho contigo o texto da edição de Abril de 2017 d’O Pequeno Saloio. Podes saber mais sobre esta colaboração neste post.

Nesta edição, descobrimos a origem do dia das mentiras, falamos sobre o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, ficamos a saber tudo sobre a Leishmaniose Canina e aprendemos mais sobre as dores nas costas.

Há ainda receitas, os passatempos, as sugestões culturais e as novidades das escolas deste núcleo escolar.

Se quiseres adquirir uma cópia, contacta-me.


A partir do momento em que uma criança entra nas nossas vidas, nada mais é igual.

Durante a fase inicial, há fraldas e sono, muito sono. Há loiça por lavar, pó por aspirar, roupa por tratar e uma família para alimentar.

Quando um bebé nasce, nascem também toda uma série de necessidades e novas tarefas que enchem a vidas dos novos pais de atribulações e desafios.

Nos primeiros meses, a principal preocupação dos pais é garantir que todas as suas necessidades básicas estão satisfeitas: carinho, segurança e alimentação.

No entanto, depois que se tornam móveis, e sobretudo a partir do momento em que conseguem comunicar de outra forma que não apenas o choro (nomeadamente vocalizando, ou apontando), dá-se uma mudança sem precedentes na dinâmica familiar, que irá influenciar o futuro de toda a família.

Para este pequeno explorador, tudo é novo e tremendamente interessante: os armários da cozinha, a torneiras do WC e todo e qualquer objeto cintilante e/ou barulhento.

Um bebé móvel e comunicativo é também um desafio parental de proporções épicas: a partir de agora, qualquer tarefa que envolva o bebé – vestir, tomar banho, comer ou sair de casa – ganha nuances nunca antes previstas.

Mudar de assunto, desviar a atenção, negociar, subornar e fazer promessas são artes que, por esta altura, todos os pais começam a desenvolver de forma exponencial.

Se há sapatos para calçar, imitamos animais. Quando a criança decide que não quer tomar banho, teremos de a fazer imaginar uma piscina olímpica mesmo ali dentro da banheira. Se já devíamos ter saído de casa há 15 minutos para chegar ao consultório médico a horas, prometemos brincadeira na sala de espera.

Bem, é claro que nem sempre conseguimos ter toda esta calma, ou presença de espírito… Acontece a qualquer pai.

Contudo, parece-me óbvio que todos queremos ser os melhores pais do mundo: relaxados, divertidos e no controlo das situações. Afinal de contas, o sorriso das nossas crianças ilumina o nosso mundo e qualquer lágrima nos deixa em frangalhos…

Então, para minimizar lágrimas, birras, desentendidos e rabugices de parte a parte, a máxima “devagar se vai ao longe” deve estar sempre connosco. Sim, sempre que há crianças envolvidas numa determinada situação, indo devagar vai-se mais depressa.

Contraditório? Não acho.

Vejamos:

Às 7h15 da manhã, o despertador da minha filha começa a tocar: a rádio tenta expulsá-la do vale dos sonhos a todo o custo. É quase inglório para o pobre do aparelho. Por mais que toque, por mais que berre, melhor dizendo, ela teima em não acordar.

Para que isso aconteça, será necessário que o pai, ou eu, a vamos chamar e lhe façamos festas nas costas. Quando estamos neste ponto das nossas manhãs, o relógio já está perigosamente perto da hora de saída de casa.

Ainda com os olhos fechados, reclama por ser tão cedo e já ter de estar a pé. À noite, não tem vontade que chegue a hora de dormir. Porém, de manhã, temos sempre de arrancá-la dos lençóis com uma espátula!

Quando finalmente conseguimos que ela saia da cama, tudo tem de ser cronometrado: a higiene, o vestir, etc., etc.. A maior parte das discussões matinais, das chatices entre os membros da família, acontecem exatamente nesse período: ela gosta de fazer tudo devagar e nós precisamos que ela se apresse. O conflito torna-se inevitável!

Já lá vão vários anos de convívio familiar. Afinal de contas, ela conta com 7 anos de vida e, entre os 3 anos em que frequentou o jardim-de-infância e a entrada no ensino básico, este é o quarto ano em que tem horários para cumprir. Neste meio tempo, juntámos mais um elemento à família e ele, claro está, também participa da correria matinal.

O gosto da minha filha por fazer as coisas ao seu ritmo é algo que eu compreendo. Acho inclusivamente salutar que ela prefira a calma. No entanto, eu, adulta, vivo já na era do quanto mais depressa melhor, do “estou-atrasada-e-tenho-milhões-de-coisas-para-fazer”.

Isto é algo que ela não consegue sequer conceptualizar, quanto mais compreender, ou acompanhar.

No fundo, no fundo, tenho uma tremenda inveja (da boa, ressalve-se) da calma que nos é permitido sentir quando temos 7 aninhos. Cobiço a sua lista de afazeres sem pendências astronómicas. Como ela, queria não ter emails por responder. Gostava de conseguir viver sem uma aplicação de gestão de tarefas porque tudo o que preciso de me lembrar de fazer cabe ainda dentro da minha cabeça…

Consultas médicas. Atividades extra curriculares. Aniversários. Festas. Reuniões.

São tantos os afazeres e as solicitações. Temos muitas responsabilidades e compromissos. Às vezes parece que não seremos capazes de dar conta de todos os recados…

Entre tarefas pessoais, familiares e profissionais, a nossa vida parece um carrossel que roda sem parar a uma velocidade estonteante.

Todos os dias, saltitamos entre os momentos em que temos de cuidar de nós, dos que nos são queridos, da nossa carreira, do nosso lar e de todas as outras coisas que fazem parte da nossa vida.

Corremos de um lado para o outro na esperança de conseguir cumprir todos os nossos deveres, agradar a toda a gente, não falhar prazos e evitar a sensação de que algo importante ficou por fazer por nossos descuido, ou esquecimento.

Que nunca seja por culpa minha, rogamos…

Lá no fundo, sabemos que conseguir fazer tudo aquilo a que nos propomos a cada dia não é humanamente possível. Mas estamos sempre dispostos a pelo menos tentar.

No fim do dia, quando temos a oportunidade de recapitular o bom e mau do dia que terminou, podemos sentir que fomos super-heróis, ou que tudo correu da pior forma possível. Há dias em que parece que o tempo estica e outros há em que ele simplesmente voa sem que o consigamos apanhar.

A vida moderna, que nos tornou permanentemente disponíveis, acessíveis à distância de um telefonema, de um SMS ou de um Email, parece ter dobrado as nossas tarefas. Tanta coisa para dar atenção, tantos chamados, tanto para ler, para fazer, para dizer, para responder…

Estamos exaustos! O cérebro permantemente a processar informação, a resolver problemas, a equacionar soluções, a rever o que está feito e o que ainda está por fazer…

Deitamos a cabeça na almofada, a altas horas da noite, e não conseguimos dormir enquanto o fluxo e a confusão não param. É altamente desgastante viver desta forma!

E, no entanto, não conseguimos abrandar… Não conseguimos impor outro ritmo. Não conseguimos sair do carrossel porque ele parece estar a girar cada vez mais rápido, cada vez mais veloz. Gira, gira, gira, com luzes a piscar a piscar, com vozes a gritar.

Fechamos os olhos e desejamos que pare. Procuramos pela pessoa que comanda o carrossel e esta não aparece em lado nenhum. As outras pessoas que viajam no carrossel parecem não se importar muito com a velocidade a que vamos.

De repente, pensamos: tem de haver um travão, uma alavanca de segurança. Quero descer, não posso mais continuar a este ritmo. Estou a enlouquecer, estou mal disposto. Quero sair!

A custo, detetamos a tal alavanca e caminhamos na sua direção. Depois de várias tentativas, conseguimos puxá-la. O carrossel para e nós descemos.

Depois, o carrossel retoma a viagem, exatamente ao ritmo de antes.

Só que, felizmente, já cá estamos fora. Viramos costas. Rumamos a casa. A nossa vida vai ser diferente a partir de hoje!

A partir de hoje, vamos começar a ir devagar para ir depressa.

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2 thoughts on “Devagar, que eu tenho pressa!

  1. Olá minha querida Mafalda!

    Confesso que tinha saudades de te ter por aqui e de ler as tuas palavras!
    Gostei imenso de ler este teu artigo. Embora ainda não tenha filhos gostei mesmo de ler este teu testemunho, gostei da forma tão real como abordaste este tema! Parabéns por isso!

    Beijinho enorme e bom fim de semana**

    1. Doce Catarina.
      muito obrigada pelas tuas palavras.
      Às vezes, não é fácil conseguir por cá para fora aquilo que realmente sentimos.
      Às vezes, precisamos de por estas coisas cá para fora para nos reinventarmos e lembramos daquilo que é realmente importante.
      Que sorte ter-te desse lado 🙂
      Beijos grandes e tudo de bom.

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