Deixar ir…

É sabido que sou uma fã acérrima de destralhar.

Tento manter a quantidade de tralha sempre controlada, seja ela roupa, bibelots, brinquedos, livros, ou o que quer que me entre pela porta dentro.

Ao nível mental, tento libertar-me de maus pensamentos, de comparações desnecessárias e de problemas que nada me acrescentam.

No dia-a-dia, risco afazeres sem sentido, sistematizo o envio e o recebimento de emails, defino planos de tarefas e tento que a agenda respire tanto quanto possível.

No entanto, há muitos, mesmo muitos, momentos em que sinto que tenho demasiado para fazer: tarefas obrigatórias, das quais depende o fluir dos acontecimentos, ou tarefas que não é possível, pelo menos por agora, simplificar mais.

Ter muito para fazer, sentir que não há espaço para parar, para relaxar, deixa-me ansiosa. Faz-me reagir de forma brusca e ríspida.

Isto acontece sobretudo ao nível pessoal e familiar: deixo de conseguir ser calma, ponderada e esqueço-me com maior facilidade dos sentimentos das outras pessoas e do efeito que o meu estado de espírito tem nos meus relacionamentos.

A minha irritação sobe para níveis que, se os visse de fora, os consideraria perigosos e quem está perto de mim sofre os efeitos colaterais destes sentimentos.

Paralelamente, torno-me menos tolerante para comigo mesma e penso desfavoravelmente a meu respeito: sou uma fraude, que, afinal, não percebe nada de vida simples, de mindfulness, de organização… Passo o tempo a dizer aos outros que devem viver com mais calma, que devem descomplicar as suas vidas, mas, afinal, a minha própria vida é um caos que tento a todo o custo esconder…

Eventualmente, quando o stress acalma, este estado de espírito desvanece-se e consigo olhar para o tema com outros olhos.

Sim, é verdade que simplifiquei muito a minha vida: tenho muito menos tralha, menos preocupações e consegui mudar a minha forma de ver certos assuntos, deixando os antigos padrões de perfeição de parte. Isso foi fundamental.

Por outro lado, o facto de a família ter crescido neste meio tempo, acrescentou mais alguma confusão a todas as equações e isso é algo complicado de gerir para alguém que acha que consegue fazer tudo e chegar a todo o lado.

Escrevo com o último fim-de-semana em mente.

Ah, o fim-de-semana! Passamos a semana toda a sonhar com ele e o sábado e domingo a lutar para ter tudo feito.

Ao fim-de-semana quero descansar, quero passar tempo de qualidade com a família e/ou com amigos, quero brincar com os meus filhos, quero preparar a semana que se segue, quero cuidar da casa, quero, quero, quero…

Quero muito, não é?

Porém, chego sempre ao domingo à noite com a sensação de que me fartei de trabalhar, de que passei o tempo a zangar-me com os miúdos e de que não consegui fazer nem metade do que queria.

Quando consigo parar para respirar e refletir um pouco sobre o tempo passado, consigo ver que, se tivesse mantido o ritmo de há alguns anos atrás e não tivesse efetivamente simplificado a minha vida dentro do que me tem sido permitido, hoje tudo seria muito mais difícil e angustiante.

Se o quarto dos miúdos continuasse atafulhado de brinquedos, limpar o pó demoraria entre 2 a 3 vezes mais do que demora hoje.

Se eu não aceitasse que não posso ter a casa sempre imaculada, passaria muito mais tempo tensa e triste.

Se eu não tivesse a aprendido a deixar o meus filhos serem um pouco mais crianças, com a sua desarrumação e com os seus disparates, estaria permanentemente zangada, o que levaria a muito mais lágrimas e desatino, para ambas as partes.

Quando estou calma, consigo olhar para trás e ver o quanto simplifiquei, o quanto mudei, o quanto cresci.

Quando estou calma, percebo que tomei a opção certa, ainda que, muitas vezes, tudo pareça muito difícil e a única coisa que me apetece é sair porta fora e correr para um lugar onde ninguém grite, ninguém suje a casa de migalhas, ninguém me impeça de descansar quando preciso desesperadamente de o fazer… Será que existe um lugar assim?

O que faço para me recentrar? Paro e destralho. Removo, edito, retiro. Risco, esqueço, deito fora. Sem medo. Sem olhar para trás. Deixo ir…

Quero fazer menos e ter menos para poder fazer mais daquilo que realmente gosto.

Menos é mais!

Escolho deixar ir. Ainda que haja momentos em que tal seja extremamente difícil, ou roce o impossível.

Pode sê-lo hoje, mas talvez deixe de o ser amanhã. Tenho essa esperança.

Simplificar continua a ser o caminho. Ainda que, muitas vezes, não seja nada simples.

Todos os caminhos têm as suas sinuosidades. É inevitável. Mas este é o que escolhi e estou confiante na minha escolha.

Os desafios fazem parte da vida e eu continuo firme no meu de simplificar para ser (ainda) mais feliz.

Eu tu, como lidas com o tanto que há para fazer? Consegues manter sempre a calma, ou também tens momentos em que se houvesse um autocarro para “Paraíso Sem Problemas” o apanhavas?